O “soft power” da misoginia
Associar luxo e riqueza a submissão é naturalizar um discurso que fomenta a violência contra a mulher
Na semana passada, escrevi sobre as “trad-selesposas” — aqui no Substack, esse espaço de conforto. Minha argumentação não passa por críticas individuais nem por apontar o dedo para outras mulheres, não se trata disso.
Quando critico essa etiqueta — SELESPOSAS, ou WAGS —, falo do reforço de um modelo de família tradicional em que o papel da mulher é secundário.
Não é que essas mulheres (pasmem) não tenham o “direito”, na minha modesta opinião, de submeter (ou seria condicionar?) a sua existência à de um homem, colocando em primeiro lugar a sua “função” reprodutiva e de cuidados do lar.
Não é porque, nesse papel de submissão, estejam mais sujeitas a sofrer violências e não conseguir fugir delas, se você considerar isso um problema individual.
Mas, quando isso ganha tom de movimento, quando a mídia entra na busca por cliques corroborando esse modelo, bem, aí já estamos falando mesmo de um discurso que funciona como uma espécie de “soft power” da misoginia.

O recado é: olha que vida linda e confortável é possível. Só vemos, nesses posts e pseudorreportagens, mulheres lindas (para o padrão vigente), ricas, com bolsas caríssimas (quem liga, sério?), alguns filhos a tiracolo (que nunca deixam suas mães com olheiras) e tempo de sobra para viajar o mundo atrás de seus machos.
O homem, enquanto isso, cumpre o papel ao qual foi destinado, bem encaixado nos estereótipos de gênero que fundam a violência contra a mulher.
Ele sustenta a casa, o conto de fadas. Ele decide o seu voto. Ele decide o seu método anticoncepcional. Ele decide a cor do seu esmalte. Se você pode sair com as amigas. Que foto você pode postar. Se o seu vestido está curto demais. Se o trabalho que você faz vale a pena pra você — afinal, ele pode pagar tudo. Vai vendo.
A gente naturaliza esse discurso. Volto a ele, agora, também para responder a quem disse que a minha crítica, sim, é que é “doutrinação”. Sim, uma mulher usou essa palavra e depois me bloqueou (rs). Isso na outra rede.
O problema é que as “selesposas” têm influência, de fato. E, quando a gente menos espera, a posição em que estão vira sonho de menina.
Eu, como jornalista, sei que temos grande responsabilidade na manutenção desses imaginários.
DICA DE LEITURA
Se você é jornalista ou se preocupa com a maneira como a nossa profissão retrata as mulheres, leia:
VOZ ATIVA: O manual do jornalismo antifeminicídio
Adendo ao ótimo livro “Histórias de morte matada contadas feito morte morrida”, esse caderno de Niara de Oliveira e Vanessa Rodrigues, editado pela Drops, reúne boas práticas e diretrizes para o bom jornalismo antimisoginia, aquele que não reproduz estereótipos, evita a revitimização e se preocupa mais com a dignidade da mulher do que com o apelo por cliques. Recomendo fortemente.

Quero sugerir aqui a tese premiada da Ana Paula Portella, que tem no Kindle por 24,99 para quem quiser obter.
Uma leitura rápida e potente, que nos mostra o perigo dos papeis tradicionais vendidos como sonhos de princesa. É o poder patriarcal agindo de forma suave mesmo!